Barbie também joga futebol

 In Conceito, empreendedorismo, liderança feminina, Tendência

O ano era 1998 e a escola, que já não existe mais, ficava na Av. Rebouças, em São Paulo. Eu cursava o segundo ano do ensino médio, chamado de 2º Colegial da época.

E foi com este título que recebi uma das poucas notas máximas que obtive em matéria de “humanas”, afinal, sempre tive uma inclinação para exatas.

Foi o professor Persi, da Escola Logos, quem me incentivou, durante uma redação que levava o mesmo título desse artigo, e na qual eu defendia a minha visão do universo feminino. Um elogio raro, vindo de um professor que ensinava a escrever, mas de poucas palavras e, de certa forma, tímido e conciso.

Na última semana, participei de um evento que discutiu este universo, o feminino, e no 3º Conalife, Congresso Nacional de Liderança Feminina da ABRH-SP 2018, que aconteceu no Hotel Unique, em São Paulo. Lá discutiu-se equidade de gênero e o destaque da liderança feminina em diversas áreas. Lá, aos 37 anos, me lembrei da Barbie jogando futebol e desse momento da minha vida.

Com painéis acerca do futuro, mulheres nas ciências, igualdade de gênero, empreendedorismo e inovação, o Conalife debateu questões como a representatividade da liderança feminina em áreas diversas. Deu destaque para nomes como da brilhante Profª. adjunta de Física do ITA, Sônia Guimarães, e da jovem Miriam Haruo Koga, medalha de Ouro na IX Olimpíada Latino Americana de Astronomia e Astronáutica.

Durante o evento, revi o vídeo, do Sindicato de Trabalhadores da Área Financeira da Noruega para a campanha do Dia Internacional da Mulher deste ano. No vídeo, crianças têm de cumprir uma tarefa simples e igual para meninas e meninos: colocar bolinhas coloridas em recipientes. Depois, de olhos fechados, elas ganham o prêmio em guloseimas. O dos meninos é 20% maior. O objetivo do sindicato com o vídeo é mostrar aos trabalhadores financeiros que a questão é uma prioridade e que está tentando mudar a situação da desigualdade salarial.

No painel “O futuro é agora. Estamos prontos?”, a presidente SAP Brasil, Cristina Palmaka, exemplifica como lida com a questão de gênero e salários numa das maiores empresas de tecnologia do mundo: os cargos e salários são determinados, independentemente de quem os ocupe. Parece algo simples não é? Mas as divergências, não só salariais, entraram para os fóruns de debate apenas em um presente não muito distante.

 

E, foi no vídeo das crianças, no qual o percentual recebido pelos meninos se mostrou maior, exatamente pelo mesmo trabalho, que rememorei não apenas da redação, mas de um sentimento e vontade de “justiça” – no sentido mais puro da palavra.

Sou de uma geração que ainda cresceu entre os dilemas de que “coisas de menino não são para meninas”, apesar de ter tido uma educação mais liberal. E não se trata de liberar brinco ou cabelos longos ou ainda uma divisão simplista entre rosa e azul. Falo de questões como cursar Arquitetura por achar que Engenharia era muito “masculina”. Ou ainda de que as mulheres do setor imobiliário possuem presença bem mais ativa na corretagem e em Decoração de Ambientes .

Esse dilema e essa polaridade são o tema do mais recente livro do acadêmico e um dos cofundadores do movimento Capitalismo Consciente, Raj Sisodia, em coautoria com Nilima Bhat: “Liderança Shakti, o equilíbrio do poder feminino e masculino nos negócios.”

O significado literal da palavra shakti é “poder”. Refere-se à energia criativa, ao que gera vida e tudo o que está a nosso redor – é um poder construtivo, não destrutivo.

Todo ser humano possui as duas energias dentro de si, a feminina e a masculina.

Homens também têm as femininas e, mulheres, as masculinas. Porém, suprimimos o feminino nos homens. Assim, os valores masculinos é que predominam em países e organizações. Muitos deles são positivos, como disciplina, discernimento, foco, força, resiliência e coragem, que nos fizeram progredir, mas há os negativos, entre os quais dominação, agressão e a disposição para a guerra, e estes causaram – e causam – muito sofrimento. (Via revistahsm.com.br)

Durante o Conalife, o economista e apresentador Samy Dana trouxe alguns dados, no qual crianças na 4ª série eram colocadas para comparação em velocidade na corrida e, segundo o qual, os meninos teriam mais vantagem. Houve protestos.

Aqui, recorro novamente ao exemplo de uma líder, Cristina Palmaka, da SAP, que, no mesmo painel sobre o futuro, fez uma excelente auto-crítica, considerando que preside uma empresa de tecnologia. Cristina ressaltou que a tecnologia é o meio, o facilitador. As conexões são humanas. Portanto, o que faz a diferença é o potencial humano, aliado à tecnologia.

Eu diria que os dados de Samy Dana são relevantes, de certo modo, se estivermos olhando a velocidade em si. Mas aqui estamos falando da mesma função descrita acima para a tecnologia, como meio, e não como o fim.

Estamos num momento de dar voz a esta liderança, o que não significa uma pura e simples questão de bandeira. Se a “queima do sutiã” simbolizou um manifesto do final da década de 1960, evoluiu para o “Girl Power” no início dos anos 2000, e agora passou para o atual “The Future is Female”, os novos tempos exigem reflexão. Seja dentro ou fora do universo corporativo, como diz o título do painel do congresso, “o futuro é agora”. Estamos prontos?

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Elisa Tawil

Empreendedora do mercado imobiliário e de negócios. Fundou a JL&co, por acreditar num modelo de gestão mais eficiente, leve e produtivo.

Paixão por fazer negócios com valorização do indivíduo e da sociedade. Possui experiência em soluções de conflitos e negociações em cenários de crise .

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